Projecto poético-musical “Vértice” inicia I Digressão Regional

O projecto poético-musical “Vértice” inicia hoje, 17 de Março a sua primeira digressão regional e no A.Poética estamos muito honrados por havermos sido convidados para ser o órgão de comunicação oficial da digressão. Ao longo do ano iremos dando notícias e divulgando as próximas datas e principais aspectos desta digressão que pretende levar a todo o arquipélago a sonoridade composta a partir da obra poética de diversos poetas madeirenses, contribuindo para a divulgação da literatura regional.
O primeiro concerto acontece integrado nas festas de São José, na freguesia do Arco de São Jorge, concelho de Santana e terra natal do poeta popular Manuel Gonçalves, o Feiticeiro do Norte que já integra o leque de canções de Vértice e que será homenageado por ocasião do assinalar do 90º aniversário da sua morte.
Para quem ainda não conhece o projecto “Vértice – Em Legítima Defesa da Poesia Insular” abaixo deixamos um breve historial do projecto, bem como menção às datas dos concertos que compõem esta primeira digressão regional e detalhes sobre o concerto desta noite no Arco de São Jorge:

 

“Vértice – Em Legítima Defesa da Poesia Insular”

Após um ano e meio de actividade, que se iniciou com a apresentação privada para familiares, amigos, convidados institucionais e comunicação social, na Sede da Ordem dos Arquitectos da Madeira, em Agosto de 2015, e a apresentação pública, integrada nos Concertos L da Estalagem da Ponta do Sol, em Setembro de 2015, que Vértice tem pisado frequentemente alguns dos palcos regionais mais interessantes e importantes.

Este projecto poético-musical, único na forma e no conteúdo, com a intenção de promover, divulgar e homenagear a poesia insular de excelência, nomeadamente escolhendo poemas que à priori são vistos como não musicáveis, que destacam a ilha da Madeira e o sentimento ilhéu, através de canções originais criadas a partir dos cordofones tradicionais madeirenses, numa perspectiva estética contemporânea e alternativa, tem sido cada vez mais apontado nos meios académicos, como um dos catalisadores eficientes, que veio revitalizar a inter-relação poesia/música, como provam os muitos convites para concertos-aula, tanto nas escolas secundárias, como na Universidade da Madeira, tendo sido já considerado de interesse público pelo Centro de Investigação em Estudos Regionais e Locais da Universidade da Madeira, pela Associação Musical e Cultural Xarabanda e por alguma da imprensa regional.

O colectivo ecléctico, criativo e experiente, formado por:
 
TOZÉ CARDOSO – Voz e cordofones madeirenses (Ex-professor de música e actual
dinamizador cultural, produtor, guionista, multi-instrumentista, compositor e letrista);
 
MIGUEL CAMACHO – Trombone (Professor de Educação Musical na Escola B+S do Campanário, destacado na Banda Municipal da Ribeira Brava, trombonista da banda Black&White – Dixieland Jazz Band);
 
RUI CAMACHO – Percussões e flauta (Fotógrafo na DRC, flautista e percussionista de Xarabanda, Presidente da Associação Musical e Cultural Xarabanda, Director da revista Xarabanda, autor de diversos artigos sobre temática de cultura tradicional madeirense. Desde 1981, realiza trabalho de campo de recolha da tradição madeirense. Coordenador do protejo de sistematização e classificação do Cancioneiro Tradicional da Madeira);
 
ANTÓNIO PLÁCIDO – Intérprete da palavra (Realizador, produtor, actor e Director do TEF – Teatro Experimental do Funchal, ex realizador e chefe de produção da RTP Madeira),
 
devido ao número de solicitações para concertos-aula e concertos normais, não só para o espaço regional, mas também para o continente e fora o país, decidiram fazer uma pausa em Novembro de 2016 para se focarem na organização da sua 1ª digressão regional.
Nesta iniciativa, realizar-se-ão 16 concertos, 6 no concelho do Funchal, e um por cada dos outros concelhos da Madeira, sempre num local emblemático, em especial, nas localidades onde nasceram os poetas cantados pela banda, pretendendo também destacar e valorizar o património histórico/arquitectónico local. Os espectáculos serão todos de livre acesso ao público, de forma a conseguir-se a maior interacção possível com as comunidades locais, frisando a importância da obra poética dos diversos escritores madeirenses, e demonstrando as possibilidades de interligação criativa entre a poesia e os cordofones tradicionais madeirenses, contribuindo para a imagem cultural dos vários concelhos da região, através da divulgação dos seus produtos culturais, incentivando outros artistas a darem passos semelhantes.
 
Os concertos iniciar-se-ão todos com uma pequena palestra sobre a vida e obra dos poetas em destaque, veiculada sempre por um investigador na área dos estudos literários, com palestrantes convidados pelas edilidades, ou através da parceria estabelecida entre Vértice e o departamento da Universidade da Madeira, Centro de Investigação em Estudos Regionais e Locais.
 
…Carácter inovador da digressão…
 
É a primeira vez na história da actividade cultural da região, que se pretende realizar uma digressão que promova, divulgue e homenageie os poetas do arquipélago da Madeira, e valorize igualmente o património histórico e arquitectónico local, através de uma linguagem contemporânea e alternativa, que consiga juntar diferentes gerações de público, invertendo a tendência de alguns destes escritores serem mais conhecidos fora de portas do que dentro.
…Agenda da digressão…
 
Estão já aprovados 6 concertos para o concelho do Funchal, a serem realizados nas Freguesias de São Pedro, Santa Maria Maior, Sé, São Gonçalo, Imaculado Coração de Maria e Santo António, sobre os quais se conhecerão as datas em breve:
 
. 17 de Março de 2017, concelho de Santana, no Arco de São Jorge;
 
. 26 de Maio de 2017, concelho da Ponta do Sol;
 
. 8 de Julho de 2017, concelho da Calheta;
 
. Nos restantes concelhos ainda estão a ser marcadas as datas, que serão divulgadas o mais depressa possível.
…Início da digressão/Concerto de abertura…
Poeta homenageado: Manuel Gonçalves (Feiticeiro do Norte)
 
Início da digressão/concerto de abertura: 17 de Março de 2017, sexta-feira às 22.30h
 
Concelho: Santana
 
Zona do concelho: Arco de São Jorge
 
Local de concerto: Átrio da igreja matriz do Arco de São Jorge
 
Abertura de concerto/palestrante convidado: Professora de português Bela Menezes, especialista da obra do Feiticeiro do Norte
 
Neste concerto, será apresentada em primeira mão, a nova canção da banda, baseada num poema de Manuel Gonçalves sobre a emigração, intitulada “De arrepiar”, à qual se segue o alinhamento dinâmico que já vai caracterizando o trabalho deste colectivo;
A organização do evento é da responsabilidade da Casa do Povo do Arco de São Jorge, em parceria com a Junta de Freguesia do Arco de São Jorge e o Clube desportivo do Arco de São Jorge.
 
Este evento é financiado pela Câmara Municipal de Santana e pela Secretaria Regional da Inclusão e Assuntos Sociais, aos quais se juntam os esforços das entidades supracitadas, e o patrocínio da casa de turismo rural Casa das Hortênsias.
A digressão de Vértice será acompanhada pela empresa de som e luz ANIMATURA, com quem foi estabelecida uma parceria para providenciar toda a logística necessária;
 
…Notas sobre o poeta homenageado…
 
Manuel Gonçalves, o “Feiticeiro do Norte” , natural da freguesia do Arco de São Jorge, é uma reminiscência do jogral medieval que, simultâneamente divertia e censurava. Nascido em 1858 e falecido em 1927, este cantador de arraial, analfabeto mas de observação viva e resposta pronta, deixou uma marca indelével na cultura popular madeirense, através dos seus versos, que actualmente já são legado da tradição oral. Manuel Gonçalves, ao contrário de outros poetas populares, não imitou nem repetiu rimances, já conhecidos e adulterados, o que ainda valoriza mais a sua obra. Era agricultor e dedicava-se também ao mester de pedreiro, para além de viajar por todas a freguesias da ilha, onde vendia os seus versos editados em folhetos.
“Mantinha e estimulava as velhas e tradicionais folganças populares. Tinha sempre coisas novas para narrar e cantigas para preencher serões sem conta. Foi ao cantar o charamba e a mourisca, ao tocar viola ou rajão, que o Feiticeiro desenvolveu aptidões naturais para a rima e para o verso. Tinha cerca de 40 anos quando começa a compor rimances ao gosto popular.
Depressa ganhou fama, sobremodo nos arraiais, que se realizam em diversas épocas do ano em toda a ilha.
Em 1910, emigra para o Brasil, onde também compôs e publicou dois rimances; decorrido pouco tempo regressou à Madeira, retomando o antigo hábito de calcurriar os caminhos da ilha, de arraial em arraial. Foi por volta de 1920 que deixou de cantar, tinha já 62 anos, morreu na sua freguesia, em 1927, e o seu funeral assistido pelo Pe. Manuel Júlio de Castro, foi um dos mais concorridos de que há memória na localidade.”

in, “Versos de Manuel Gonçalves (Feiticeiro do Norte)”, Funchal, 1959

Imagem em destaque de Miguel Nóbrega
 
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A.Poética #16

Bem-vindos ao A.Poética #16.

Nesta edição, destaque nas notícias para a apresentação de duas obras de dois dos nossos Poetas Convidados: Dalila Teles Veras e Miguel Santos, assim como se assinala a realização do I Congresso Internacional Herberto Helder. A não perder também o Palimpsesto #8, desta vez em forma de conto.

Na poesia seleccionada apresentamos entre outros, a bela leveza nas palavras de Victor Hugo Oliveira e na fotografia, abram todos alas para Pedro Teixeira Neves.

Saudações e Boas Festas,

MF

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AS ESCOLHAS DO #16:

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A tarde entornada na janela
o verão doce fechado
nos azuis do corpo
por cima da erva
aprendemos a respirar
a súbita passagem da noite
veio da outra margem
a água a voz de barro ou o inverno
feliz das plantas
ramo a ramo
no rosto
no olhar ileso
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Uma tarde fechada na ordenação das casas
as máquinas são verdades que batem lá ao longe
para lá da mesa de cerejeira
as correntes trémulas e azuis
retiram o sossego às janelas
As vozes acendem-se nos vasos
uma mulher alimenta um pássaro
tem no corpo guardado um sonho de bailarina
uma intenção com vestidos claros
uma manhã de molhar os pés
com primeiro riso
Neste momento as ruas estão fechadas
e o sol escava a terra
Neste momento as mãos deslizaram
pelos vidros como que chorassem
os nós inteiros de incerteza
A mulher branca molha as suas asas de pássaro
em contra-luz
os seus gestos celebram melodias
sonos altos que vão pousar nos telhados
nos cabelos brandamente
Os tapa-sóis fecham as pálpebras agora
que o carpinteiros gritam
e rasgam no peito
aos olhos expostos
os corações de papel
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Victor Hugo Oliveira nasceu a 11 de Julho de 1976, no Funchal. Licenciou-se em Língua e Cultura Portuguesas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Faleceu a 03 de Julho de 2006.
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Navego no barco bêbado
rumo à origem das ruínas

impactantes deste nada

onde os nenúfares
despem-se
mostrando o esqueleto abstracto
de onde saíram os vagalumes
abutres das auroras boreais
que desencadeiam
os desmoronamentos
desse gelo
que destila a luz
que de tão translúcida
cega quem vem do sul

 

 

 

 

Rogério Saviniano Telo – Licenciado em Inglês/Francês pela UMa, fez parte dos seus estudos na Universidade de Gotemburgo. Desde muito cedo se dedica à poesia pois esta é o elixir da existência.

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Montanha

Há um tempo, nesse tempo há uma dor.
Dor, que se encolhe num campo partido por gente.
Há um vento quente que, na sombra das árvores, te veda o espírito
velho, ausente, dorido.
Há papoilas que renascem rezando, vindas da salvação das horas gemidas de um encontro de mãos. A fé vive nas montanhas silenciosas.
Da garganta funda da terra sobe, numa espiral de espuma, um caracol arrastando o corpo desnudo, profetizando a queda de Adão.
Na tentação, o destino é mudo, o pecado desfaz-se pedindo perdão.
Há um tempo abandonado num ventre perdido. Eva pariu o temperamento
do amor bravo na solidão do dia, a dor nasceu de asa de anjo e boca de serpente.
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Destino

Luto en-contra o destino, de inútil o que sinto, permaneço.
Seduzo luas tristes em abóbadas de zinco,
quentes os esqueletos de quartos minguantes
berrantes no estropio de um céu negro,
espirro uma melancolia de sangue lagarto.
Faminta eu ave céu e tu búzio breu, nossa concha líquida, de espuma água viva,
tornou-se incolor. Resto de corpo asa incrustado nos dentes.
Antropofagia.
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Diana Castro e Abreu Serrão é natural do Funchal, Madeira, Portugal. Vive e trabalha entre o Funchal e Lisboa. Desde muito cedo que manifestou interesse por diferentes áreas de expressão artística: escrita, teatro, canto, dança, fotografia e cinema. Completou o ensino secundário na área de Línguas e Humanidades. Frequentou o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Licenciou-se em Cinema, Vídeo e Comunicação Multimédia, na área de Realização e Produção Cinematográfica pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT) . Trabalhou, em Lisboa, como freelancer em Cinema, Televisão e Publicidade em diferentes produtoras e associações artísticas. Participou como autora na fanzine ” Nicotina” com a sua poesia. Atualmente, colabora com a Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia da Direção Regional de Educação da Região Autónoma da Madeira realizadora e Editora de projetos fílmicos e videográficos. Apresentou recentemente o documentário ” Henrique Franco e a condição do ilhéu-ser artista oriundo da Madeira”, parceria com a FCSH, Universidade de Lisboa.

Colabora em diferentes projetos artísticos na RAM e realiza formações sobre cinema. Realizou conteúdos videográficos para 1ª residência artística no âmbito do projeto europeu
“ISOLAT_Romper Fronteiras-2015 -Teatro Fórum na RAM.
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OS NOSSOS POETAS CONVIDADOS:
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A Flor dos Segredos

Quando o mar me assombrou tão longe do meu sertão,
arranquei do peito palavras de um tempo que guardei
e as lavei, como quem lava o rosto e as mãos.
Não sei se eram os meus olhos, ou as estrelas que brilhavam.
Não sei se eram os meus cabelos (vermelhos),
ou a Rosa dos Ventos que girava.
Não sei o nome do meu amor, mas não tenho medo.
Entre as escuras pedras secas do sertão,
aprendi a regar a flor dos segredo.
Paulo César Moura
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tropeçam fantasmas
no regresso do discernimento
meu regresso?
meu discernimento?
não sei
não ouvi o galo
anunciar as matinas
– como quem ergue o homem
não vi a lagartixa
cuspir nas pedras
– como quem guia o homem
não ordenei a um ermo ou a uma floresta
para se fazerem e ao seu contrário
– como quem alimenta o homem
mais além não suam deuses
nas molduras das paisagens
– como quem acredita no homem
não senti os cães
a ladrarem nas vespertinas
– como quando se iça no fim dum baraço o homem
não sei das cagarras
que destoam da noite
– como quem ri do homem
não sei
regressam fantasmas
nas exéquias do discernimento
e assim
suspendo as glândulas do conhecimento
com suspiros do abdómen
sacudo o sangue
com gargalhadas redundantes
e tropeço sempre
na minha sabedoria
tenho na retina
um brilho de lâmina
– afiada por dentro
– romba por fora
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casa
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas
José Paulo Paes
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morta a dona

morta a casa
morta a casa
morta a memória
morta a memória
morta a memória da memória
morta a memória da memória
o vazio da casa
morta
deixada morta

Dalila Teles Veras, in “Solidões da Memória”, SP, 2015

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Tiraram-nos um

Tempo inteiro
A cristalina propagação do espaço
Entre as flores…
Deram-nos um
Tempo
Pensável em descontínuos
Espasmos de desencontros.
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Miguel Santos
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FOTOGRAFIA:
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Todas as fotografias da presente edição foram seleccionadas por Fedra Espiga Pinto a partir do repositório de Pedro Teixeira Neves, fotógrafo convidado da edição #16:
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Pedro Teixeira Neves, nascido em 1969, Lisboa. Cresceu em Bragança e em Portimão. Deu aulas de Inglês antes de cursar Relações Internacionais. Começou a escrevinhar no DN Jovem. No jornalismo, começou em 1994, no jornal Semanário. Passou pela revista Arte Ibérica, Agenda Cultural de Lisboa, Magazine Artes, Epicur, Ticketline Magazine e programa Câmara Clara, da RTP2. Publicou o primeiro livro em 2002, o romance Uma Visita a Bosch, edição Temas & Debates. Depois, publicou alguns livros de poesia, entre os quais «O Farol Cego», de lavra mais recente, na Insubmisso Rumor. Publicou também meia-dúzia de livros para crianças, um livro de contos e um outro romance breve, «A Morte Milagreira», na Glaciar. Na fotografia, ganhou dois prémios da Fundação José Saramago, publicou em algumas revistas, realçando o recente número da «Egoísta», dedicada a Lisboa, onde sobre um seu conjunto de 40 imagens escreveram quatro escritoras; Maria Manuel Viana, Teolinda Gersão, Patrícia Reis e Filipa Leal. Fotografou também a poesia de Maria do Rosário Pedreira para uma sessão das Quintas de Leitura, do Teatro Porto Alegre, no Porto. A 16 de Dezembro próximo lança um álbum de fotografias sobre casas de Fado em Portugal, com a chancela do Museu do Fado e textos de Maria do Rosário Pedreira e Rui Vieira Nery – um trabalho no seguimento da edição do livro «Rota do Fado» (Esfera dos Livros). Lançará também nos próximos meses um novo livro para crianças, «Nós, as Letras», na editora Tropelias & Companhia. Para breve está também novo livro de poemas.
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NOTÍCIAS:
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Quando Paola com toda sua beleza e elegância negra, perguntou ao professor para que servia uma escola, ele se calou, ainda que, em seu íntimo, acreditasse que poderia dar àquela menina insolente vários argumentos, várias razões para… (ler mais)
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Ocorreu nos passados dias 21, 22 e 23 de Novembro no Colégio dos Jesuítas, no Funchal, o I Congresso Internacional Herberto Helder, uma iniciativa do Centro de Investigação em Estudos Regionais e Locais da Universidade da… (ler mais)
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Foi no passado dia 12 de Novembro, na galeria funchalense PORTA 33, que o A.Poética promoveu a apresentação de “Solidões da Memória”, a mais recente obra de Dalila Teles Veras, poeta madeirense radicada no Brasil desde a década de 50… (ler mais)
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Aconteceu no dia 2 de Dezembro, no Salão Nobre da Câmara Municipal do Funchal a apresentação do mais recente trabalho ensaístico de Miguel Santos, nosso habitual Poeta Convidado no A.Poética(ler mais)
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A 30ª edição do Photobook Club Madeira trouxe ao Espaço FNC291, no Funchal o mais recente trabalho de Susana Paiva, um ensaio fotográfico criado a partir de um texto ensaístico de Pedro Eiras, que por sua vez o escreveu… (ler mais)
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Fedra Espiga Pinto, a nossa photo selector, se assim se pode chamar, cá no A.Poética, mostrou pela primeira vez a sua perspectiva vertical na rubrica Expo Toilet, da responsabilidade do Mini Eco Bar, na cidade do Funchal. Inaugurou a 09 de Dezembro… (ler mais)

Convite

A.Poética convida todos os leitores, subscritores e público em geral para a sessão apresentação de “Solidões da Memória”, poesia de Dalila Teles Veras no próximo Sábado, dia 12 de Novembro às 16 horas na Galeria Porta 33, Rua do Quebra Costas, nº 33, Funchal.

a-poetica-convite

(clicar na imagem para mais informação)

A.Poética # 15

Bem-vindos ao A.Poética # 15.
A presente edição vem recheada da cidade do Funchal e da ideia que da cidade tem João Evangelista aliada às palavras em riste dos nossos poetas convidados e de quem teve a bondade e coragem de entre nós se apresentar sob escrutínio.
O Verão ainda aí está – leiam e sintam muito!
Saudações,
MF
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AS ESCOLHAS DO # 15:
© JEvangelista

© JEvangelista

Às vezes, quando aquela chuva vinda das terras do sem fim me humedece as entranhas como se de repente tudo ficasse sem cor, eu morro um pouco para a beleza, aquela beleza que sendo apenas minha, enfeita a terra de luz.

Mas, às vezes, quando renasce da lama a alma transformada em fénix, sim, quando da morte se vive a intensidade da vida, tudo, tudo se transforma em beleza e tudo vive as vidas do sem fim.
Nasce, ainda que adormecida, a compaixão.
Rita Freitas nascida no Funchal em 13.01.1965. Estudou Acção Social mas trabalha no Exército. Apaixonada pelos poetas portugueses desde Fernando Pessoa, Herberto Helder a Mia Couto, adora expressar o que lhe vai na alma nas pequenas frases que ouve do coração. Tem uma grande admiração e respeito pelos animais e pela natureza que se reflecte não raras vezes, nos poemas que publica no seu blogue “À Procura da Lucidez”. Tem dois poemas editados nas Antologias de Poesia Portuguesa Contemporânea: “Entre o Sono e o Sonho” (Chiado Editora).
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Fome
© JEvangelista

© JEvangelista

Estou ébrio e os pensamentos, comem-se.

Um por um, cansados de tanto dançar, comem-se.
Passo a passo, encostados ao silêncio, comem-se.
Inquietos por nenhum tédio se aproximar, comem-se.
Insensatos, dispersos pelo horizonte, comem-se.
Enraivecidos, conhecidos pela rebeldia, comem-se.
Melódicos, cacofónicos, pontiagudos e opacos, comem-se.
Delirantes, ofegantes, estruturados, rimados, comem-se.
Sonhados, atordoados, troando, acobardando, comem-se.
Gargalhando, chorando, pálidos, apáticos, comem-se.
Estupidamente presenteados, detestavelmente agoniados, comem-se.
Fumegando, rastejando, arruinados, descorados, comem-se.
Saltando como palhaços de fado para fado, comem-se.
Sujeitos ao desacordo, gritando, esperneando, comem-se.
Profundamente capacitados para intoxicar qualquer aventura, comem-se.
E a mim…
A mim não!
Sou demasiado asqueroso para tamanha fome.
Jorge Ribeiro de Castro nasceu no Funchal. Colaborou, desde meados dos anos 90 (através de artigos, entrevistas a bandas e criticas a cds) com diversas revistas amadoras a nível nacional e internacional (algumas já em formato webzine). Foi manager, teclista e letrista de uma referência dentro do panorama alternativo musical, Requiem Laus. Tem 6 livros editados e escreveu letras para várias bandas. Escreveu as peças de teatro, “Feridas” e “Estranhas Memórias, ambas encenadas pelo “Teatro Bolo do Caco”. Faz parte dos “Mad Space Invaders” e colabora com o “Espaço 116” através do evento “Bem, a poesia…”.
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Mergulho nocturno
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© JEvangelista

Mergulha na noite

descobre o silêncio
que existe em ti
deixa que a lua
impregne a suave luz na tua pele
que a chuva te indique
o labirinto que as lagartas tecem
o verde que tinge
este quadro apocalítico
onde os peixes nadam no caldo ancestral
onde deixei os sonhos a levedar
 
Rogério Saviniano Telo – Licenciado em Inglês/Francês pela UMa, fez parte dos seus estudos na Universidade de Gotemburgo. Desde muito cedo se dedica à poesia pois esta é o elixir da existência.
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© JEvangelista

© JEvangelista

Resumo-me à insignificância

Aceito, finalmente
Nem todos podemos valer alguma coisa
E
Pedra sobre pedra sobre pedra
Sem calço tende a cair
No real, no chão
Lugar dos pés.
***
Mais uns minutos
Vou falar, fazer-me ouvir
Espero que a ressonância não me iluda
E que o eco perdure apenas o suficiente
Mais dois ou três tempos
E a mesma posição, será outra?
Denis França nasceu em 26 de Novembro de 1986 numa aldeia do Faial, concelho de Santana na Ilha da Madeira. É Licenciado em Serviço Social e actualmente exerce funções na área. Gosta de escrever apenas porque sim.
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OS NOSSOS POETAS CONVIDADOS:
© JEvangelista

© JEvangelista

uma voz irónica

sibila a crónica
da minha morte
a espaços um silêncio
vem sossegar
o homem que morre
faz esquecer
o ferro no sangue
a oxidação insone
o lastro de sal
a terra inversa
o contrário – o mal
[palavras cíclicas
surdas
mímicas]
a voz apaga-se
confunde-se
com a ausência da voz
no homem crónico
sem água – sem sede
crónico de morte
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Manual
© JEvangelista

© JEvangelista

Laços antigos circundam os passos de hoje –

areia guardada em vãos difíceis do sapato –
o coração é um baú; os olhos, o farol.
Caminhe-se abastecido de histórias;
a memória é, pois, o único bem
que se tem guardado no bolso.
O resto é fumaça, vapor de banheiro…
Preencha-se de laços de cor as mãos
e os amarre no peito.
Siga-se, assim, ao sol
e a cruz que se pele.
(02.06.2013)
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DÚVIDAS AMOROSAS
© JEvangelista

© JEvangelista

Vê como os búzios caíram

         Virados p’ra Norte
         Pois eu vou mexer no destino
         Vou mudar-te a sorte
                 Os búzios, Jorge Fernando
AMARRAMENTO INFALÍVEL
TRAGO A PESSOA AMADA EM 7 DIAS
(cartaz colado em poste de luz)
que tipo de corda amarra o amor?
qual o tipo de nó?
(marceneiro
marinheiro
escoteiro
construtor?)
depois de amarrado, que é feito do amor?
(sete dias para atar — quantos para desatar?)
amor amarrado ama?
Dalila Teles Veras, in Estranhas Formas de Vida, Dobra/Alpharrabio, São Paulo, 2013
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O DECIFRAR DO TEMPO:
© JEvangelista

© JEvangelista

Há uma solidão que se afunda em azul

Para além do azul do teu olhar.
Há uma morte perdida na infância
Que às vezes se levanta
Com os nossos olhos
Quando deixamos de conhecer
As pedras e as folhas…
Porque passamos a temer o tempo.

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FOTOGRAFIA:

Todas as fotografias da presente edição foram seleccionadas por Fedra Espiga Pinto a partir da obra Funchal Street Fotography, de João Evangelista, fotógrafo convidado para o # 15 do A.Poética:
“João Evangelista, natural de França, estudou nesse país Fotografia durante um ano mas por razões pessoais recusou fazer o exame final e prefere ser visto como um autodidacta. Estudou História da Arte e aprendeu mais nessa área sobre a criação da imagem que com a Fotografia. Está mais interessado no acto de criação da imagem seja com fotografia, desenho ou pintura sendo estas duas últimas áreas o que fazia antes de fotografar (tendo feito algumas exposições) e estão voltando a estarem cada vez mais presentes no seu trabalho. Para ele a exploração da visão pessoal de cada um é o mais importante no acto criativo, isso é o ponto comum de todos os artistas que ficaram para a História da Arte independentemente da área artística. E a busca da visão pessoal e experiência não se aprende num curso.

“Um bom professor depois de ensinar “as regras todas”, aconselha seu aluno a seguir somente a regra do seu instinto, sua visão pessoal e única para cada um!”

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NOTÍCIAS:
Limuzine morreu. No enterro ninguém esteve, senão somente eu e os dois coveiros. Era domingo. O céu estava azul. Não fazia muito calor. Em sua lápide, arrisquei-me a escrever algo, que mantivesse sempre acesa a sua existência em mim – “Limuzine – névoa e murmúrio”. Quando seu corpo … (ler mais)
A arte pode servir como um processo de desocultação da verdade do ente, o artista. No caso da poesia, naturalmente, o artista é o poeta. A cada verso o poeta revela-se, expõe-se até o limite que pode ser confrangedor. Porque a … (ler mais)
Inscrevendo-se na esteira dos primeiros litógrafos que no início da era do turismo terapêutico vinham à ilha para, em usufruto das magníficas paisagens e da crescente fama internacional das potencialidades terapêuticas, a retratarem atribuindo valor ao seu trabalho e por outro lado, … (ler mais)

 

 

A.Poética # 14

Bem-vindos ao A.Poética # 14.
A presente edição não se recomenda a pessoas com elevada sensibilidade à Beleza, uma vez que muito possivelmente terminarão esta leitura derramando lágrimas de reconhecimento ao Belo e à Vida de todos os tempos e formas por existirem – isto, muito por culpa das belíssimas imagens captadas por Tchello d’ Barros, o fotógrafo convidado deste # 14. Nas notícias, destaque para o novo passo dado na tradição madeirense de feitura de antologias poéticas: os “Cadernos de Santiago I” pretendem ser “mostra” da poesia insular.
Saudações,
MF
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A SELECÇÃO DO MÊS:

 

 

 

#1 ve_coisas_sem_verSem título (166)

Presumo então saber que os olham deixam de ver por ilusão de álcool vadio ou do choque contra o vazio das coisas ilusórias,
e escuto dos muros argamassados por  arquitectos perdidos,
queixumes e a inépcia de mãos apertando areias, erigindo
fortalezas miúdas na altura da sofreguidão da vaga maior.
Diante de mim, escorrem os dias ao avesso do sol… afora isso,
o passo rumo ao mar alteroso, ou a escalada ante
inexpugnável barreira, douram-me o pensamento em
juvenis rebeldias a destempo.
Saber fazer do  breu mais genuíno a tela audaciosa
estampada em  quarto de insónias e
desvarios vários,
inundar-me de visões oníricas e magníficos pesadelos,
voar pelos dedos que escrevem os meus olhos por
luares plantados dentro de jardins deitados sobre o sol,
acabar-me em noite cálida ou
palavra inverosímil…
Fazer do meu saber o erro no alvo da
dúvida constante,
lograr do meu labor
a luz ou a treva geminadas;
deixar, enfim, minhas dúbias certezas
ao vento passageiro e aos sóis e chuvas intermitentes
e buscar nos olhos de quem vê coisas sem ver, o lugar primacial
da demanda da pérola primorosa.
Assim será o homem na presunção de
nada saber, por ser cheio de certezas plenas;
assim verá o homem os mares e as montanhas
bailando com os dias a nascer em tempestades
anunciando o sonho…
Pelo meio da noite, que é o lugar onde a lua se esconde
para ser  ostensivamente radiante, lavra o homem as dúvidas
e certezas na areia beijada pelas ondas de todas as horas;
umas vezes no árido pino do meio dia, sem sede que seja saciada,
noutras horas, com o beijo das águas colado ao castelo de palavras
na feérica areia do poema.
***
#2 nada_mais_que_esta_ausencia
Sem título (167)
Pode ser que seja
um laivo de luz ou
sangue seminal a injectar-se em  vontade própria
por olhos cheios de vontade ausente.
Pode ser um nada de impossível na água lavada
em olhos secos de areia
à beira de um  oásis.
Pode ser algo que não valha a pena
esparramar-se em verso perdido em penumbras…
e nada pode ser mais que esta ausência
de paz pelo desejo da guerra.
Dizem que é corpo a pedir chuva como cabeça sem juízo…
Quem sabe da razão de quem diz
sem saber da razão de outrem,
quem vai saber para além
da paz, da guerra, do sangue ou manancial de lírios
assestados da direcção do absoluto?
Dizem que deus assim dirá saber.
Digo: assim deus possa saber das coisas que
eu sei diante o silêncio dos céus por dentro
dos meus segredos luminosos.
Dionísio Dinis, pseudónimo literário de Manuel Joaquim Antunes Cardoso é essencialmente um navegante das redes literárias virtuais e declamador ocasional. Mantém-se fiel ao espaço literário EscritArtes.com, lugar onde é moderador global.
Sem obra a título individual, participou em inúmeras coletâneas:  “A Arte pela Escrita” um, dois, três, quatro , cinco, seis, sete e oito (Mosaico de Palavras Editora), “Entre o sono e o sonho” 3, 4, 5 e 6, (Chiado Editora), “Imagens da nossa memória” (Mosaico de Palavras Editora), “Cartas ao desbarato” (Mosaico de Palavras Editora), “Contos de Natal” (Lugar da Palavra), “Poetas da Nossa Terra” e “Obsessões” (Lua de Marfim)
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#3 intersecao
Interceção
Talvez seja todas,
Talvez nenhuma,
Talvez metade,
Ou anéis de Saturno,
Poeiras cósmicas,
Ou rosa dos ventos,
Vejo-te passar nas nuvens que rumam ao sul,
Sou unguento de alecrim,
Heresia de sol,
Redenção de lua,
Fusão cáustica de alquimista.
***
#4 lucilam_estrelas
Trilhos
Caminho debaixo da lua cheia
Esboço ângulos mágicos
Trilhados nos caminhos de desterro.
Sabe-me a setembro chegado, a videiras, a lenha,
Talvez a Deus.
Vejam: lucilam estrelas!
***
#5 nos_sedimentos_da_natureza_renasco
Parietal
Dialetos ocres ritualizam-se em crenças,
Batucando pertenças estentóreas
Metamorfoses.
Nos sedimentos da natureza permanecem imóveis sepulcrais,
Sacralizando o mistério, a desordem talvez uma breve forma de mística,
Onde me fundo e renasço.
Cláudia Teixeira, nascida a 18 de Fevereiro de 1982; Licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto; Docente em exercício de funções na Região Autónoma da Madeira; publicou recentemente o livro de poesia Avesso Mensurável, pela PoesiafaClube/Corpos Editora.
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OS NOSSOS POETAS CONVIDADOS:
#6 o_fogo_a_consome
O Fogo se Alastra!…
O fogo se alastra devagar, sem que os olhos vejam.
A mesa está posta, os quadros estão postos,
a conta de luz no mesmo lugar.
A tevê ligada esconde o incêndio.
Os dois jantam, enquanto o fogo se alastra devagar.
Ele nada diz, se finge feliz,
enquanto os pássaros se vão.
Ela nada diz, se sabe infeliz,
enquanto outros pássaros chegam.
Ele sai de casa sem asas.
Ela fica para ver.
Longe dele, ela se despe.
Espalha velas e incensos, rosas e licores.
O fogo se alastra devagar… Ela morre
de amores.
Nua, na banheira, ela usa o telefone.
Oferece ao amante seu maior despudor.
Não diz amor nem pronuncia nomes.
Ela só geme e suspira… O fogo a consome.
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#7 o_segundo_e_besta
o filantropo
exige 3 redes
sobre o abismo
o libertário
garante a tensão
da corda-bamba
o primeiro é herói
ao cair
o segundo é besta
ao ficar
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#8 solidao_branca
Dentro da Aridez:
Mais uma vez procuro
A orgia autofágica das palavras
Para tentar ser o silêncio de mim…
Uma sombra de seiva e Sol
Que desdenhe para sempre esta solidão branca
De ser um grito inaudível
Escrito por detrás de cada olhar perdido,
Na assunção de cada gesto rápido
Dentro da falhada aridez de cada nome proferido…
Ah! Só ele não é dádiva no coração dos seres!
Só ele não é a serena ausência das palavras!
Só ele não é o silêncio dos beijos…
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#9 limites_de_uma_casa
ecos
e erras
nos limites duma casa
destruída por raízes
Gastão Cruz
da porta, a sineta
(zinabre a impedir o toque)
anuncia o silêncio
da cisterna, o mergulho evocado
(barquinhos de madeira ao vento)
o quase afogamento
da escadaria, o mijo a escorrer das pernas
(a lembrança do primeiro dia)
a escola e o medo
no piso novo de cima
(aviltante acréscimo)
um corvo
(nunca mais
nunca mais)
pousa e indica
o que deixou de servindo
(tumba rizomática)
Dalila Teles Veras, Solidões da Memória, SP, 2015
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FOTOGRAFIA:
Todas as fotografias da presente edição são da autoria de Tchello d’ Barros e foram seleccionadas por Fedra Espiga Pinto a partir dos álbuns do autor:

Tchello d’Barros dedica-se desde 1993 à Literatura e Artes Visuais. Nascido na pequena e sulina Brunópolis, residiu em 15 cidades no Brasil, percorreu 20 países em constantes atividades culturais, já com duas visitas a Portugal e participação de exposições em Lisboa. Além dos ensaios fotográficos que produz, atualmente estuda Cinema na Universidade Federal do Rio de Janeiro, cidade onde está radicado. Com obras visuais em mais de 100 exposições, 6 livros de poesia publicados e textos participando em cerca de 50 antologias, publica regularmente seus textos e imagens em mídias impressas e digitais. Coordena ainda a itinerância de sua exposição retrospectiva de poesia visual “Convergências”. Eventualmente ministra oficinas e palestras, participando também de mesas-redondas, júris, editorias, curadorias, saraus e diversas atividades culturais no Brasil e exterior.

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NOTÍCIAS:
Ele foi laborioso, pagou todas suas dívidas, telefonou para os amigos mais chegados e lhes disse banalidades. Depois, novamente sozinho, lacrou as janelas e as outras frestas da casa; então, enfim, aproximou-se do fogão… (ler mais)
Falamos da mais recente antologia de poesia madeirense editada pela Âncora Editora em parceria com a Universidade da Madeira e o seu Centro de… (ler mais)
Teve já direito a dupla apresentação em duas das localidades a Norte na Ilha da Madeira, o livro de poesia de Cláudia Teixeira editado sob a chancela da… (ler mais)

A.Poética # 13

Bem-vindos ao A.Poética # 13

Nesta edição, destaque nas notícias para as várias iniciativas em torno da poesia na cidade do Funchal e para a declarada posição política do nosso Paulo César Moura em relação à actual situação brasileira em mais um Palimpsesto.

Na fotografia, assombre-se com as montanhas madeirenses através do olhar de Ricardo Jardim.

Saudações,

MF

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A SELECÇÃO DO MÊS:
 
 
Os meus mortos
estão bêbados de imortalidade
 
 
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© Ricardo Jardim

© Ricardo Jardim

No limbo da noite
 
No limbo da noite
caem as águas deste rio
um dia saído do nada
foi solidão
o vento será lembrança da lua
de ventre inchado
que roça este presente incerto
Quantas vezes repetirei
estes gestos maquinais
até que a espera termine
e lance as sementes da bonança
 
***
© Ricardo Jardim

© Ricardo Jardim

Bichos pensantes
 
A mudança de pele
faz-se sempre
na travessia do deserto
agosto é o mês ideal para tal
gente adiada na paragem do tempo
ciclos de energias pouco animadoras
factores de risco
para o risco de te perder
e
depois dos ventos cruzados
virá a acalmia
devoradora dos bichos pensantes
 
***
© Ricardo Jardim

© Ricardo Jardim

Abre o silêncio
 
Abre o silêncio
e deixa passar as palavras
que transportam a chuva
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
***
© Ricardo Jardim

© Ricardo Jardim

Imagino
o peso das palavras
como um barco em demanda
dos corpos
transportados ao zénite
do éter
onde o silêncio
transforma a beleza
do verde que tinge o sonho
 
 
Rogério Saviniano Telo – Licenciado em Inglês/Francês pela Uma, fez parte dos seus estudos na universidade de Gotemburgo. Desde muito cedo dedica-se à poesia pois esta é o elixir da existência.
 
 

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© Ricardo Jardim

© Ricardo Jardim

Gritos de rua
 
Com a ponta dos dedos
toco no eco dos gritos de rua
e sacudo os grãos de areia que tenho
adormecidos nos olhos entreabertos.
 
Mas enquanto o alecrim não seca
enxugo a dor
cravada na carne arroxeada
desta gente com sono
que grita presa aos vícios e aos fios de sangue vivo.
 
De manhã, acordo pela metade da luz das coisas
e vislumbro o nosso andar de gato sensual
que lambe os restos de sangue da dor que permanece
balouçando no grito que ecoa pelas ruas apinhadas de gente.
 
A mesma dor que enxuguei
ainda magoa-me o interior dos ossos.
O tutano cria-me a vontade de ouvir o grito do Ipiranga.
 
À noite, fico com a cabeça cheia de pássaros
assustados com a inesperada presença dos felinos.
Os pássaros em vez de voarem
nidificam na dor aguda
e fazem nascer  ideias que se coisificam
nos sonhos que me abrem os olhos. 
 
 
Zé Abreu nasceu e vive na ilha da Madeira. Possui um Mestrado em Arte e Educação; Curso de Artista de Teatro; no seu perfil profissional acumula uma experiência de professor da disciplina de Teatro, no terceiro ciclo do ensino básico; formador na área do Teatro e da animação cultural e turística, em diversas instituições. Encenação de vários espetáculos teatrais de autores como: Gil Vicente, Raúl Brandão, Mário Pyrro, Luísa Costa Gomes, Miguel Cervantes, Eurípedes, Sófocles, Frederico Garcia Lorca, Teresa Rita Lopes, António Torrado, Ésquilo e Fernando Pessoa. Poemas editados em coletâneas no Brasil (Nós da Poesia – Vozes da Rua) editado pela All Print Editora e em Portugal (Antologia de Poesia Contemporânea -Entre o Sono e o Sonho) editado pela Chiado Editora. Um livro de poesia “Na Baía dos Poetas – Os Olhos Têm Caminhos por Dentro”, editado em 2015, pela Chiado Editora
 
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OS NOSSOS POETAS CONVIDADOS:
 
© Ricardo Jardim

© Ricardo Jardim

Eras a minha Poesia
 
Quando o ponteiro escapava do mundo
e Tu eras um delírio e uma travessura,
não importavam nomes, grifes, diplomas, fundos,
senão a máscara desnudante da nossa loucura.
Quando eras fantasia e desejo real
e a noite escondia nossas palavras obscenas,
varava-te um poema erótico de Natal 
e Tu choravas gozando e morria serena.
Sempre te pedi o despudor da fêmea lânguida
e Tu sempre brincaste para mim de garota vadia,
porém, quando te pus no fio luminoso de minha lâmina, 
abriste as pernas e disseste que eras a minha Poesia.
Mergulhei-me em ti e a noite implodiu na minha alcova.
Tu não soubeste da metade do meu naufrágio.
Andei á deriva e sem fé em mar de mil rotas,
tombando a ermo, motivo de chacota e risos de escárnio.
No caos absoluto do oceano profundo,
sequestrei teu nome para o meu barco.
Mas um náufrago é como um vagabundo,
um herói bizarro dos oprimidos e dos fracos.
Trilhei caminhos errados até chegar a uma praia,
onde nela descansei e na areia rabisquei o teu nome –
Puta. O mar lambeu… o meu poema maldito.
Um arrepio esquisito eriçou meu corpo e senti fome.
Caminhei até chegar aqui e te encontrar de novo.
Entoo o meu canto. Tem algas, diamantes e prantos. 
Sou o sobrevivente do amor de um jogo,
que Tu pedes agora, no dia da Poesia, que te mostre o quanto.
Ajoelho-me a teus pés, Rainha Louca, mulher poética.
Serei se quiser teu Trovador – vate noturno e feroz.
Te fazendo poemas libertinos e sem métrica
Eu lírico e Tu musa, motivo da minha voz.
 
 
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© Ricardo Jardim

© Ricardo Jardim

Crónica 14
não ajuda nada dizer que é dor íngreme – esta que sinto – menos ainda perfurá-la – torpe – no papel – o carvão é o vestígio – queimadas que são as conversas dolosas e túmidas das inconsequências – não tenho os significados à ilharga – a ansiedade talha-me – tão depressa existe no horizonte térreo das minhas lentes – como nos declives centrípetos das minhas consciências – há que decifrar os ruídos – vindos não sei de que naufrágio à boca de cena – vindos – não sei – de que séculos – ruídos que somente de existir rebentam não anunciados – soterram os minerais das magnificências –as paragens bruscas do coração – tenho medo dos instrumentos berrantes que me prendem – o metal enferrujado – as coisas apressadas com tons fuscos – e pressa é só o que tenho – tanto que a luz não desenha os contornos dos quartos – depressa apercebo-me de mim – inconstante – primeiro sincero – depois salamurdo – surdo – mudo – espero enfim as grandes mudanças – bordadas com um novelo de linho – em pano de fundo por remendar – eternamente por remendar – na vertigem dos tormentos – probos e réprobos abismos por coser sinto o fértil cultivo – a raiz fecunda – de tudo
 
é escusado afirmar que é um tempo simples – este – em que vivo – mais ainda marchetá-lo – luminoso – nos píxeis que me turvam os olhos – das conversas dolosas e entumecidas das asserções lapidares permanecem – apenas – as cinzas – tenho hoje todos os significados necessários a tiracolo – a ansiedade é atalhada por mais um cigarro – e uma agenda vazia – tão depressa sou no horizonte delineado das lentes – como nos caminhos ascendentes da minha consciência – sei decifrar os ruídos – vindos de barcos emersos dos naufrágios à vista de terra – vindos do meu século atrevido – melodias escorreitas que eclodem anunciadas com peso e medida – uma pedra polida de magnanimidade de régua e esquadro – do desalento à falta de talento – os ritmos binários da alma – manejo com zelo os instrumentos com que aprisiono a realidade – os polímeros obsoletos – as coisas apressadas em tons de branco – e pressa é ainda o que tenho – tanto – que já a noite não me apaga os contornos dos quartos – apercebo-me sempre de mim – sincero – depois ainda mais sincero – estancado – não espero mudanças – bordo o transitório em pano de fundo perfeito – perfeito para a eternidade – afinal tanto se me dá – como tanto se me deu – excepções são dedos de uma mão decepada sinto o súbito irromper – a solar emergência – da esterilidade
 
 
Dinarte Vasconcelos, in Crónicas para o Dia Seguinte
 
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© Ricardo Jardim

© Ricardo Jardim

O Quarto Amarelo:
 
A vaga vibrátil da noite avança,
Do jardim um cheiro intenso como som,
O quarto amarelo sem sombras…
Os teus passos diluídos procurando a margem,
«É aqui a perfumada mansidão serena das colinas…»
Gladíolos estridentes
Causam-me uma doce e súbita perturbação
Juntando-se à enseada do meu olhar…
Uma entorpecida carícia,
Poalha iluminada de estrelas na ausência da Lua,
Perdida nas tuas mãos de água,
Aqui
Num lugar que nunca se repete…
 
 
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Rito de Passagem
 
 
Que sabemos nós
seres chorosos
à beira da morte
do outro?
 
Que sabemos nós
seres medrosos
à beira da vida
à beira de nós mesmos?
 
Que sabemos nós
da barca à espera
da passagem
do mistério?
 
— Nada
 
Por isso tememos
 
Dalila Teles Veras
 
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FOTOGRAFIA:
 
 
Ricardo Jardim. “Nascido no Funchal a 06/07/65, amante incondicional da Madeira embora muito consciente da minha ascendência açoreana (Angra do Heroismo), Terceira.
Apaixonado por cinema e fotografia. Filmo e fotografo as montanhas da Madeira há cerca de 20 anos.”
 
Exposições:
Estalagem da Ponta do Sol e Reid´s Palace Hotel.
© Ricardo Jardim

© Ricardo Jardim

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NOTÍCIAS:

“Santo Tirso é uma terra de poetas”, diz-se frequentemente. Certamente por isso, nas terras tirsenses se multiplicaram as manifestações poéticas durante vários dias. O poeta homenageado este ano foi Daniel… (ler mais)
 
 
Foi apresentado no passado dia 29 de Março no Teatro Baltasar Dias o programa formativo “Em Legítima Defesa – Encontros com Poesia, Música e outras Artes na Madeira” promovido pelo Centro de Investigação em… (ler mais)
 
 
No dia em que se assinalou o primeiro aniversário da morte do maior poeta português da 2ª metade do século XX realizou-se a 23 de Março no auditório do Arquivo Regional da Madeira a conferência Herberto Helder – redivivo, por Diana Pimentel, docente universitária e investigadora que há ano… (ler mais)
 
 
Quando minha avó era viva, ainda que anarquista, ninguém pronunciava em casa a palavra “cabrunco”. Era um palavrão que significava algo, como: o Coisa Ruim, o Diabo. Com o passar do tempo, as novas gerações transformaram o sentido dessa palavra e ela virou uma espécie de gíria, e passou a representar uma expressão de caráter galhofo e exclamatório. Uma interjeição… (ler mais)

A.Poética # 12

Bem-vindos,

Esta é A.Poética # 12 – Abaixo, “acasaladas” com poesia seleccionada e d’habitude trazemos o olhar de Francisco Maya (X.Maya). Destaque para o concretismo trazido por Paulo César Moura que do outro lado do Atlântico, agita as águas em prol da Educação e para a crónica de um dia do Festival Correntes d’Escritas, resultado do inestimável contributo do poeta Pedro Teixeira Neves.

Abaixo, também a descoberta daquela que tem sido a actividade da Alpharrabio, ao longo dos recentemente celebrados 24 anos de actividade,  e na selecção do mês… há uma estreia a conhecer.

Saudações,

MF

 

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SELECÇÃO DO MÊS:

 

Sem título (71) 

©X.Maya

©X.Maya

Em manhãs de rijo Inverno 

Saio de casa ainda o dia tem laivos da noite 
Caminho por entre frio e chuva 
Vou de alma vagabunda 
Vai meu corpo sem destino. 
Deambulo pouco afinal 
Num ápice 
Vejo-me na taberna do fim da rua 
De jornal e aguardente amanhecendo. 
 
Entre um trago e uma fugaz leitura  
Meu olhar fixa-se no labor intenso do artista 
Ali mesmo 
Defronte da taberna. 
Ali mesmo 
De braços nus 
Ao frio do tempo  
No calor da forja 
No malhar do ferro. 
 
Nos braços a vera força 
Nos braços 
A alma do ferro moldado 
E nas mãos o dom sublime da criação  
Toda a arte maior que a força bruta 
Toda a arte de alma e devoção 
A vera riqueza de saber 
Que por forte o forte braço 
Nunca vence a evidência do coração 
 
Escorre de suor no gelo da manhã 
Observo-o 
E vejo mais que mero cansaço 
Nas faces molhadas do ferreiro 
Posso descortinar até o júbilo maior 
O grato prazer de ter alcançado a forma. 
O ferro domado e recriado em suas mãos 
O gesto mais subtil enfim desvendado 
A alma por dentro do ferro laborado  
A vitória do engenho sobre a força fútil 
A força do coração sobre qualquer concreto móbil 
 
Meio trôpego 
Bêbedo por inteiro 
Saio da taberna já a tarde se faz tarde 
Transporto comigo todo o álcool do mundo 
Em loucura e lucidez de momento único 
Levo comigo a suprema simplicidade do ferreiro 
 
Lembro as palavras de despedida do artesão 
Palavras simples como puro cristal 
Palavras breves e singulares 
Assim como quem diz apenas: 
Da força bruta não reza a história! 
Assim como quem está 
Na concórdia plena com os deuses.  
 
E levo em mim uma revelação única 
Saber que tudo é mais que factuais poderes 
Que tudo é mais leve que trabalhar rija matéria 
Que ser da ordem de erigir obra em duro aço 
Pode ser apenas 
A gloriosa bebedeira da criação 
Ser ferreiro é relativizar a insana força 
Ser apenas o sábio poder 
Saber que o real poder emana dos sentires 
Muito mais que de fortes braços ou perversas razões 
Sempre mais que qualquer força belicamente exibida 
Ser artífice das coisas de suor e devoção 
É ser exemplar e abençoado ser 
Realizar dos deuses aos humanos olhares 
A vitória eterna da emoção por dentro da vida 
Contra bíceps disformes e declaradas prepotências 
Contra tudo o que o que se faz de amor ausente 
Contra o falso forte e circunstancialmente impotente 
 
Já caído na imunda valeta 
Com o vómito do álcool no cérebro em convulsão 
Escuto distante 
Escuto ao longe no perto do final da rua 
A tonitruante voz do ferreiro 
Como se fora o cântico final 
Ou já nem sei se seria a lição primeira 
Escuto então como voz divina 
 
Contra nada meu amigo 
A favor da nobreza de todas as coisas belas 
Contra nada 
Apenas a favor da força domada por bem-querer
Dionísio Dinis, pseudónimo literário de Manuel Joaquim Antunes Cardoso é essencialmente um navegante das redes literárias virtuais e declamador ocasional. Mantem-se fiel ao espaço literário EscritArtes.com, lugar onde é Moderador Global. Participou em inúmeras colectâneas: A Arte pela Escrita um, dois, três, quatro , cinco, seis, sete e oito(Mosaico de Palavras Editora), Entre o sono e o sonho 3, 4, 5 e,(Chiado Editora) Imagens da nossa memória(Mosaico de Palavras Editora), Cartas ao desbarato(Mosaico de Palavras Editora), Contos de Natal (Lugar da Palavra), Poetas da Nossa Terra (Lua de Marfim)…
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© X.Maya

© X.Maya

Neste dia treze suado de tanta certeza
a morte sentada à mesa
onde nossa senhora apareceu
a tua cova da Iria
ali cavada bem fundo
numa palidez de ambulância
numa memória final
auxiliado por um último olhar
 
e sem querer nasci de um homem partido
mas não um homem despedaçado
 
tudo enfim amolece na derradeira Hora
e resta-nos enfim o pão seco e árido da manhã seguinte
Assunção Varela nasceu na freguesia de Santa Luzia no Funchal, Madeira a 12 de Maio do ano de 1995. Frequenta o curso de Línguas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, local onde reside. Desde cedo despertou interesse pelas vertentes artísticas , nomeadamente o teatro e a escrita e a presença na revista A. Poética é a sua estreia a nível de exposição literária.
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Um dia chegaste trajado de Pierrot ao som de um samba melancólico. Trazias no peito a rosa brava e no coração o carnaval. Chegaste vestido de inocência,  caminhando na praça com graça, a lágrima traçada no rosto.
Falaste-me dos carnavais do mundo, aqueles que te fizeram vestir camuflado de alegria, dentro de trajes de lentejoulas.
 
Um dia, num qualquer sambódromo do mundo o carnaval te levou. E eu  trajei-me de Columbina.
Rita Freitas nascida no Funchal em 13-01-1965. Estudou Accão Social mas trabalha no Exército. Apaixonada pelos poetas portugueses desde Fernando Pessoa, H. Helder a Mia Couto, adora expressar o que lhe vai na alma nas pequenas frases que ouve do coração. Tem uma grande admiração e respeito pelos animais e pela natureza que se reflecte não raras vezes, nos poemas que publica no seu blogue “À Procura da Lucidez”. Tem dois poemas editados nas Antologias de Poesia Portuguesa Contemporânea: “Entre o Sono e o Sonho”.
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FOTOGRAFIA:
Francisco A. Goes Ferreira Maya (X.Maya) nasceu em Lisboa a 8 de Janeiro de 1967.
Vindo de uma família de artistas cedo mostrou a sua apetência pelas artes, começando no desenho, passando pelo design gráfico, pela pintura e uma paixão enorme pela fotografia, da qual dedica a maior parte do seu tempo.
No seu trajecto profissional, frequentou o Curso de Design Gráfico (IADE), trabalhou no departamento criativo do Diário de Noticias da Madeira, onde fez o curso de fotojornalismo. Responsável gráfico pela Benfica Ilustrado. Designer gráfico e fotógrafo (The Best Guide e Golf & Leisure). Fundador e sócio-gerente da Xmaya Design. Autor de um banco de Imagens… Realizou várias exposições de desenho, pintura e fotografia, trabalhos publicitários, publicações em várias revistas, concursos de fotografia, do qual com maior destaque, as publicações na PHOTO francesa, no “au plus Grand Concours Photo du Munde 2009, 2011e 2012 e uma fotografia nomeada no concurso internacional em 2010:
 
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POETAS CONVIDADOS:
©X.Maya

©X.Maya

encontro espinhos em gerúndio

cravejados numa folha avulsa
 
dentro de um dia – de um livro –
onde já a humidade se fez gérmen
 
«complexo de fraude»
– diz a folha –
 
a desafiar a minha fé
de erratas e de injúrias
 
 
há que duvidar do poema curto
feito de espinhos e de julgamento
 
porque – sabe quem o sabe –
há um tear de correcções
 
na urdidura de uma só expressão
com chumbos e uma bóia a meio
 
enquanto outra forma de vida não houver
esperemos ou tenhamos fé
 
 
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atributos
 
humana
tens o poder de nomear
(o que te distingue
dos outros animais)
 
humana
tens a capacidade de saber
(da inevitável finitude
fado inescapável)
 
humana
tão pouco sabes
do imponderável
(presente já futuro
inapreensível passado)humana
transfiguras
(faz um poema
delega à poesia
o inominável)
 
 
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Paulo César Moura

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IV
 
© X.Maya

© X.Maya

Eu pertenço aqui.

Preparado para os amanhãs que voam.
 
Quando, negra, disseste:
Entrega-te a mim!
Eu não tinha memória,
Eu era a fragmentação de tudo
O que era extremo.
 
Agora sei que tenho alma
E que irei esquecê-la.
 
E sei que a essência de uma flor
Continuará a esconder-me o corpo
Depois de mim,
Quando for o começo absoluto de mim.
 
 
Miguel Santos, in “Saber do Silêncio” (inédito)
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NOTÍCIAS:
 
Minha mulher, desde que assistiu ao filme de Joaquim Pedro de Andrade, Macunaíma (1969), tornou-se fã de carteirinha dessa obra cinematográfica. Não é para menos, além de o filme ser muito bom, a actuação de Grande Otelo, encarnando o protagonista, é estupenda. Depois desse filme… (ler mais)
 
 
 
Que o jornalista ora ex vista a pele de cronista enquanto escritor em visita. Eis o que me pedem, eis ao que tardiamente, e já a muito boas horas de almofadeitar, acedo, neste primeiro dia de Correntes em vésperas de maioridade, encontro de escritores e quejandos em que reincido depois de meia-dúzia de visitas… (ler mais)
 
 
 
Em 21 de Fevereiro de 1992 era inaugurada em Santo André, SP, a Alpharrabio, uma livraria de livros raros e usados que, muito mais que um sebo, nascia com uma proposta cultural de intensa actividade cultural voltada à divulgação e ao fomento e difusão do livro, da literatura e da cultura em… (ler mais)

A.Poética # 11

Bem-vindos ao A.Poética # 11.

Na primeira edição de 2016, trazemos o olhar de Ana Marta derramado em poesia. Nas notícias, destaque para  crónica do ensaio de “Vértice – em legítima defesa da poesia insular” e em selecção poética, deixai-vos levar pela metafísica do poeta-filósofo Carlos Nó.

Lembramos que as submissões estão sempre abertas e aguardamos a vossa inspiração.

Saudações,

MF

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A SELECÇÃO DO MÊS:

 

 

© Ana Marta

© Ana Marta

S.

O sangue
nota-se
num pequeno estremecer
o estremecer de tempo finito
As raízes
tocando
raízes
O silêncio vegetal
alecrim em cheiro
quase imperceptível
evaporando-se
Tomando- nos
num lapso incógnito
como todo o sentido.

***

© Ana Marta

© Ana Marta

Irretomável

A que corpo retomar
quando
essa palavra ausência soa
range
nos aros de pensamento de ti próprio
lançando-de aos odores marinhos.
Desceste muito nas ruas
músculo insaciável entre gente
re- aprendiz do esquecido
Tu – esse simples veio pulmonar
em pleno ar arcaico
estrutura óssea da evolução
em cama de transpirações
Som
que se despenha em sonho dadaísta
– a nossa couraça ecoadora de imagens.
Corpo meio sujo
dionisíaco
com a boca soletrando: apolíneo
Massa preocupação fraterna
a se subtrair adentro da idade :
– o muito mais com infinito menos
Palma de pés nus
sobre chão quente com céu nocturno
resultando neste regressar mais obscuro
Idade sempre a se estranhar
(a subir e descer a montanha-infância)
Nós – simples corpos crescidos – rodando-se
com carne astronauta
pisando pequena parcela fértil :
– a terra que o vai amar e esquecer
Ponto de néctar efémero
entre mel e fel.

Carlos Nó, poeta e filósofo.

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© Ana Marta

© Ana Marta

Debalde perscruto os céus e os mares

Debalde perscruto os céus e os mares,
numa ânsia de azuis iguais.

O mar foge dos meus pés magoados
e o céu das minhas asas feridas!
Fica-se-me o tempo,
sozinho,
resignado,
num apelo mudo
à vida.
E os meus passos, cansados e desiguais,
velam pelo sono de sereias e peixes, fantasmas
submersos em águas desconhecidas
querendo regressar à luz refletida nas areias.

Debalde perscruto o verde das árvores
e o sossego das rochas!
O mundo afoga-se num egoísmo negro!
Apenas eu plano sobre a esperança em dias melhores!

Apenas eu sonho o sonho impossível de uma Humanidade feliz!

 

Goreti Dias nasceu em Santo Tirso licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Na Universidade Portucalense fez a sua pós graduação em deficiência mental/motora. Participou, entre outras coletâneas, em A Arte pela Escrita( EscritArtes.com em parceria com a Editora  Mosaico de Palavras, 8 edições), Nas águas do verso (Lusopoemas), Entre o sono e o sonho, 4 edições (Chiado Editora), Contos cardeais ( Editora Mosaico de Palavras), Imagens da nossa memória ( EscritArtes.com em parceria com a Editora  Mosaico de Palavras), Som de Poetas (Papel de Arroz), Lugares de Palavras de Natal (Editora Lugar da Palavra), Lugares e palavras à moda do Porto (Editora Lugar da Palavra) Autora de “Diários, escritas quase inverosímeis” ( Editora Mosaico de Palavras), “Animais nada animais” ( Editora Mosaico de Palavras), “Animais ainda mais iguais” ( Editora Mosaico de Palavras), “Livro da Distância” (Linkprint), “dos prazeres e seus contrários” ( Editora Mosaico de Palavras), ” Nuances de vermelho em carne ao rubro” (Editora Mosaico de Palavras). Brevemente,” O sapo saudoso”.

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Poetas bravos
Os poetas bravos,
não têm medo de terem
o olhar preso no arame farpado.
O riso largo das suas lágrimas
é o melhor soro
para curar
a memória em ferida.
Enchem-se de braços
para desbravarem as veredas rasgadas
na mente. O chão torce-se debaixo dos seus pés,
mas não esmorecem
enquanto não ouvirem o grito sadio da terra.
As nuvens acastelam-se,
uma a uma,
sobre a cabeça dos poetas bravos.
Acastelam-se e chovem,
pingo a pingo,
uma luz sábia e cinza
que mantém o lume dos seus versos atemporais.
Zé Abreu nasceu e vive na ilha da Madeira. Possui um Mestrado em Arte e Educação; Curso de Artista de Teatro; no seu perfil profissional acumula uma experiência de professor da disciplina de Teatro, no terceiro ciclo do ensino básico; formador na área do Teatro e da animação cultural e turística, em diversas instituições.
Encenação de vários espetáculos teatrais de autores como: Gil Vicente, Raúl Brandão, Mário Pyrro, Luísa Costa Gomes, Miguel Cervantes, Eurípedes, Sófocles, Frederico Garcia Lorca, Teresa Rita Lopes, António Torrado, Ésquilo e Fernando Pessoa.
Poemas editados em coletâneas no Brasil (Nós da Poesia – Vozes da Rua) editado pela All Print Editora e em Portugal (Antologia de Poesia Contemporânea -Entre o Sono e o Sonho) editado pela Chiado Editora.
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FOTOGRAFIA:
Todas as fotografias da presente edição são da autoria de Ana Marta e foram seleccionadas por Fedra Espiga Pinto a partir do website da autora:
Ana Marta nasceu na ilha da Madeira em 1981.
Recentemente viveu e trabalhou no Rio de Janeiro onde também teve contacto com vários projectos de Inclusão Visual.
Por ter nascido na Madeira desde cedo sentiu interesse em viajar e conhecer outras realidades. A sua fotografia caracteriza-se pela reportagem subjectiva.
Começa o seu percurso em 1997 na Arqueologia mas cedo percebeu como a Fotografia pode ser um instrumento de partilha, pesquisa e mudança.
Estudou no Instituto Português de Fotografia em Lisboa e é licenciada em Fotografia pelo Instituto Politécnico de Tomar. Destacou-se entre os melhores alunos do seu ano, desenvolveu e dinamizou o projecto “Noites da Fotografia” no âmbito do Núcleo de Fotografia do IPT, que ainda hoje prevalece.
Em 2005 como fotojornalista correspondente na agência LatinPhoto viajou até o Brasil, México e Guatemala.
Também trabalhou em produção de rádio, televisão e moda, passando pelo vídeo documentário.
Participou na #5 Bienal do Porto Santo com o trabalho “As Palmeiras não são de cá” na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa.
Actualmente dedica-se ao ensino da fotografia para crianças e adultos.
Trabalhando em parceria com a Residência Artística da Pedra Sina, Cowork – Funchal, a Associação de Surdos, pais, familiares e amigos da Madeira (ASPFAM), o Jardim Botânico da Madeira, Escola de Dança do Funchal e o Criadouro Carioca no Rio de Janeiro.
De um ponto de vista comercial prefere a Fotografia de Produto, Comida e Arquitectura.

foto 2© Ana Marta

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OS NOSSOS POETAS CONVIDADOS:
Ilha
Em sal espuma e concha regressada
à praia inicial da minha vida
Sophia de Mello Breyner Andresen
a ilha, nem
ilha era (o mar
nesga
ao lado e à frente)
a ilha, não
tinha fim nem
começo, rosário
de sal ao pescoço
a ilha, o espaço
do jardim, calcetado
de seixos e
ervas de permeio
a ilha, o curto
caminho de casa
à escola
visconde cacongo
a ilha, o longo
percurso da escola
à casa
(fortificada ilha)
Dalila Teles Veras, in Solidões da Memória, SP, 2015
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© Ana Marta

© Ana Marta

escrevo porque há ameaças que são missões
e porque há imagens que deflagram – a primeira gota do dilúvio
é de uma arca de sonhos que vos falo
– de registos de assassínios e saques em mar alto
dormem os sonhos como uma colónia de formigas
dentro de uma noz – dentro da abóbada do tempo
se eu partir a noz no princípio da noite
naufragam as formigas pelo braço acima – a água do peito –
até à jugular que treme como um fio de teia
como quando o insecto convoca a aranha
posso resgatar do corpo as formigas – as promessas de inundação –
com a tenaz com que abri a noz
mas são laboriosos estes sonhos de gávea armada
– usam tudo – e as palavras – para se sufocarem
em vinho seco – em água centrífuga – em saliva de garganta tapada
– em ciclos de tempo sem marés minguantes
convocam a sede de os deixar afundar
– ou a sede de os petrificar nas margens dos homens
dir-se-á que para contentar a sede qualquer líquido serve
– qualquer enxurrada com formas terçãs – patas – véus – teias
mas o que não mata o sonho é a sede em redemoinho
o que não aplaca o sonho é a vigília de o ter sonhado
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© Ana Marta

© Ana Marta

Só os loucos brincam lá fora
Agora aqui é assim – fotografa-se a comida.
Depois, mudos, ficamos pelos cantos com nossas máquinas de falar.
Há barulhos que vêm da rua – há loucos que brincam lá fora.
Preferimos o eco oco do nosso medo de ser livres.
Preferimos a segurança da penumbra disfarça-ladrão.
Há um terrorista chupando laranja numa esquina de Londres.
Há um menino de rua cheirando cola com uma faca na mão no Rio de Janeiro.
Guardamos nos bolsos nossos sorrisos para mantê-los novos em caso de visitas inesperadas.
Não gostamos mais de contatos. Preferimos à distância.
Por mais que as crianças venham a se transformar em algo que ainda não sabemos o que será,
Preferimos tê-las por perto fotografando comidas.
Ainda que mudas, à distância e na penumbra.
É o nosso lar: o eco oco do declínio dos nossos afetos.
Só os loucos brincam lá fora… Só os loucos!
Quando as máquinas falam por nós até os cães são messias.
Sem cheiro e sem temperatura, a alma vazia da televisão está instalada em todos os lares.
Por mais que ela nos mostre flashes dos loucos nas ruas nas festas de carnaval
E diga que a segurança foi reforçada, a TV já nos ensinou:
há sempre o risco de não se voltar mais para casa.
Agora, aqui é assim… Os que vivem na penumbra fotografando comidas
e os que se arriscam nas ruas chupando laranjas com menores de rua,
Os loucos.
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foto 2

© Ana Marta

NYX ARCANA:
Corpos silenciosos
Esperam
Estorcidos
Por um
Calor
Que os anime.
O preço a pagar
Pelo Bem
De ver
A alma diurna
Da carne…
O ponto
Onde a luz
Fala com as águas
E lhes comunica
A sua densidade
Granular.
Porque todas
As imagens doem.
Ao se assumirem
Como poalha
Nestas palavras
Tão frágeis
Que mal
Tocam
As nossas peles
Desprotegidas
E desnudas
Face à Noite.
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NOTÍCIAS:
Foi esta a frase que serviu de mote à 22ª edição do Photobook Club Madeira, centrada na obra fotográfica do surrealista português Fernando Lemos, que decorreu no Espaço 116 no passado dia 14 de Janeiro com coordenação e apresentação… (ler mais)
Só o António Plácido, actor e intérprete da Palavra, não estaria presente no ensaio. Quando chegamos à cave que, para já, alberga a Associação Musical e Cultural Xarabanda, entidade-berço de muitos projectos da música e da cultura loca… (ler mais)
Quando em 2001 escrevi a peça infanto-juvenil “Dengue” – drama de uma notícia de jornal, inspirada em um dos nossos dramas sociais e em alguns versos dramáticos de Manuel Bandeira, não imaginava que esse problema social… (ler mais)

A.Poética # 10

Bem-vindos ao A.Poética # 10.

Sim, 2015 está a terminar e embora já tenhamos passado o Natal, cá estamos para vos oferecer nesta quadra a prenda recheada de beleza que é a edição que abaixo vos aguarda.

Nas notícias, destaque para o lançamento do novo livro de poesia da “nossa” Dalila Teles Veras e apresentamos “Pequenos Naufrágios” – poesia emparelhada com o olhar sobre os despojos de Susana Paiva que empresta também a este número a sua participação fotográfica a partir das relações estabelecidas com os poemas que este mês apresentamos. Na selecção do mês, Filipe Vieira de Freitas é estreia entre nós e desde o outro lado do Atlântico, Paulo César Moura coloca na Palavra a crise da política Brasileira.

A todos, votos de um excelente 2016!

Saudações,

MF

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A SELECÇÃO DO MÊS:

 

 

4_SusanaPaiva_plastic

© Susana Paiva

A ausência das palavras
faz-se sempre na morte dos dias
o rendilhar da pele
acontece nesta noite
de lua eivada de sangue

 

 

 

Rogério Saviniano Telo – Licenciado em Inglês/Francês pela Uma, fez parte dos seus estudos na universidade de Gotemburgo. Desde muito cedo dedica-se à poesia pois esta é o elixir da existência.

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8_SusanaPaiva_magnetic

© Susana Paiva

Este fado a raiar gozo insane

Este fado a raiar gozo insane,
amálgama de tormentas vertidas em pesar e devaneio,
este fado…
quase orgasmo e cataclismo.
Um destino com dentes filados na esperança!

Com a vida suspensa pelo fio da navalha e o salto
do trapézio em sobressalto vespertino,
com a vida rota pelo sol da manhã proscrita e as horas seguintes
amarrotadas na estrada alheada do seu fim.
Caminhando em passo de fantasma entre luz e multidão.

Tão longe do sol e tão perto do fim, sobrará talvez fado e cobardia.
E por pecúlio, o medo, a loucura ou o desassombro;
monólogo eterno em viagem interminável.

 

Dionísio Dinis, pseudónimo literário de Manuel Joaquim Antunes Cardoso é essencialmente um navegante das redes literárias virtuais e declamador ocasional. Mantém-se fiel ao espaço literário EscritArtes.com, lugar onde é Moderador Global. Participou em inúmeras colectâneas:  A Arte pela Escrita um, dois, três, quatro , cinco, seis, sete e oito (Mosaico de Palavras Editora), Entre o sono e o sonho 3, 4, 5 e 6,(Chiado Editora), Imagens da nossa memória (Mosaico de Palavras Editora), Cartas ao desbarato (Mosaico de Palavras Editora),  Contos de Natal (Lugar da Palavra), Poetas da Nossa Terra (Lua de Marfim)…

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© Susana Paiva

© Susana Paiva

Inventário pouco útil

Uma flor
Um diamante
Uma testa brilhante
A indignação do vento
A tarde passeando nas patas de um gato
O amor dormindo nas escadas do metro
Um sonho vero de zero zero
O descanso de alguém que caiu do terceiro andar
pessoa de salamandras e tronos
a compaixão humilde dos que descem e sobem

fios invisíveis reino a reino
da luz à sombra
da sombra à luz

Funchal, 2012

***

 

© Susana Paiva

© Susana Paiva

Andantes

Ó grande vazio
Ó grande noite
Amor universal e inexistente
Caímos levantamo-nos
Tudo permanece no que não é.

***

 

 

© Susana Paiva

© Susana Paiva

Jardim Municipal seguido de Auto-Cruxificação e Coda

Politburos como veias
Em estalines de emoção
A retórica age como chuva dourada
Sobre um campo de sorrisos
Há música
beleza brilhante
Um ritual com dança
Carne fundente
Fusível
Fogo extremo

e mulheres pela noite dentro
Montanhas descendentes tatuadas
Vendagem da lábia
Capitalistas do risco
Lavagem de moelas
O sangue do touro banhando
Os corpos imperfeitos
O poço descendo as escadas
Como espírito livre desenganado
E a cruz pensando o deserto
Depois flores
O ar de agosto
Com mãos de mãe
E coração de cipreste
Expandindo-se acerca dos mortos
Acerca da loucura inverosímil
Sem lugar nas conferências diurnas
Só lugar para o lixo do meio da noite
Onde não se vê
E no entanto repete-se e gera-se
Mas não existe
Só existe a sobrevivência da espécie
A afirmação de um dedo
A comandar os exércitos do amor-próprio
Caminho de remediados sem revolta
Sem pensamento próprio
Aquele que aponta uma arma a si mesmo
Caminho de domesticação
Telecomando
E
Os
Escombros
À
Volta

A pobreza extrema do poema
Talvez a verdadeira sopa
Cinco pedrinhas
Do estrume nasce a flor
Que não pode nascer de outra forma
Nem tem nome
A flor-sem-nome
Que não pode ser dita
Senão nos seus próprios termos
Totalidade totalitária
Neve perene da abertura
E compreensão completamente fechada
Sobre si mesma
uma paragem do sangue
não

explicação

Como deter a guerra civil cardíaca ?
expande-se e expande-se
para a realização
só isso basta
e talvez lhe chamem
alegria

Agora neste domínio marinho,
Caverna de humanos, vulcão de humanos,
de olhos como moedas magnéticas,
Submetidos ao ferro
Vendidos pelo ferro,
crucificados pelo ferro,
desejo obscuramente que o poema
seja uma crismação pelo fogo

Funchal, 2014

Filipe Vieira de Freitas, poeta nascido na Ilha da Madeira em 1975.

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FOTOGRAFIA:

Todas as fotografias da presente edição são da autoria de Susana Paiva e foram seleccionadas por Fedra Espiga Pinto a partir do website da autora:

Susana Paiva nasceu em 1970, em Moçambique. Fotógrafa. Tornou-se fotógrafa ao longo das duas últimas décadas, anos cheios de aprendizagens e dúvidas.
Construiu a sua singularidade através de constante pesquisa e experimentação, descobrindo o seu ritmo, a sua zona de conforto e os seus conceitos de eleição.
Hoje sabe que é uma fotógrafa lenta que requer tempo para a contemplação e para a instalação num determinado espaço ou interacção com um determinado sujeito.
Descobriu que é uma fotógrafa tangencial, que necessita estar perto, para mover e ser movida e partilhar generosamente os seus projectos fotográficos e ideais. Compreende agora que é propulsionada por uma imensa necessidade de transfigurar a realidade e navegar na poética dos fragmentos da vida quotidiana, e que a fotografia se tornou a sua primeira linguagem, substituindo gradualmente a palavra primordial na sua interacção com o mundo. Hoje sabe que só quando compartilha as imagens que cria fica preenchida não apenas como profissional mas, mais importante do que isso, como ser humano.

4_SusanaPaiva_plastic

© Susana Paiva

http://www.susanapaiva.com

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OS NOSSOS POETAS CONVIDADOS:

1_SusanaPaiva_olga

© Susana Paiva

Tirem a Dilma do poder

Por favor, tirem a Dilma do poder!
Tirem ela da presidência já!
Apliquem-lhe o impeachment, por favor.
Sei que o momento é este: mudança!
O nosso comandante Cunha nos mostrou uma luz no fim do túnel.
O fim da era PT.

Certamente, amanhã não será igual a qualquer dia.
Há de ter um gosto de vitória.
Porque, agora, sim, teremos um país de verdade,
comandado por gente idônea, como… como… como… como quem?
Porra, como quem?
Porra, como quem?
Porra, como quem?
PORRA, COMO QUEM?

Paulo César Moura, inédito

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© Susana Paiva

© Susana Paiva

Inteiro

Nada nos apazigua a alma.
O tempo grita.
E a Saudade mata
O que não é
Inteiro
Em nós.

E só nos é
Inteiro
O esquecimento
Da Explosão Branca
Que nos fez
Ser absolutamente tudo
Para além da rarefacção
Das máscaras…

O Destino ferve.
O espaço dissolve-se
Em fios tecidos no fogo
Por anjos de nada.

E só nos fica
Isto.
Palavras.
Quando a Luz
É outra.

Para onde
Temos todos que avançar
Sem medo.

Miguel Santos

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3_SusanaPaiva_magnetic

© Susana Paiva

porque as tardes caem na ilha
com o prenúncio do dia circular
temperado no mar que ferve a ocidente

porque os crepúsculos tombam
nos perfis dos homens virados às montanhas
que só vêm o pôr-do-sol pelo lado das sombras

porque a terra cercada tem um corpo esfíngico
feito de leveduras e sulcos que desenganam
da canga do amanho do fruto e do arrotear do oceano

porque quem conhece o corpo e as vísceras fica louco
como aos borracheiros e aos levadeiros
que no fim da jornada contam as futuras ossadas

há uma conspiração nas foices – no alecrim – nos búzios
uma conspiração no tempo escravo – nas palavras surdas ao meio
– nas levadas para bocas de uma só sede

um enredo de mãos roxas – de enxadas – de molduras de ribeiras
risca os horizontes dos poios – os esquadros das veredas
e homens e choupanas regressam ao mar em fevereiro

um emaranhado de mãos de ferrugem – de redes – de bucheiros
traça os cardumes nas escarpas – os bancos nos campanários
e homens e sóis pesados sobem sempre do mar no levante

a terra cresce – e desflora-se para dentro
os homens mirram – e abatem-se para fora
o rochedo navega – ancorado – no mesmo destino

Dinarte Vasconcelos, http://www.poemasdiaseguinte.blogspot.pt/

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contemplação

  Ó céu azul – o mesmo da minha infância –
               Eterna verdade vazia e perfeita!    
Fernando Pessoa

à varanda
: o oceano
em verdes e azuis
adornado

a imensidão ondulada
(mar a confundir-se céu)
segue nos tempos
(este, mais o da lembrança)
nunca a mesma
nem aquela que a contempla

Dalila Teles Veras, in Solidões da Memória, 2015

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NOTICIAS:

“Pequenos Naufrágios” no Espaço 116

No âmbito da 21ª edição do Photobook Club Madeira, foi apresentado no passado dia 10 de Dezembro no Espaço 116 no Funchal o livro “Pequenos Naufrágios”, uma obra de colecção limitada a vinte e cinco exemplares numerados e assinados, que conjuga a fotografia de… (ler mais)

Novo Livro de Dalila Teles Veras

Foi apresentado no passado dia 4 de Dezembro “Solidões da Memória”,  o mais recente trabalho de Dalila Teles Veras. O livro, sob a chancela conjunta da Alpharrabio Edições e da Dobra Editorial foi apresentado na Casa das… (ler mais)

Homenagem ao poeta José António Gonçalves

Foi no passado dia 19 de Novembro que uma reunião de familiares e amigos levou a cabo no Teatro Municipal Baltasar Dias, no Funchal, um evento de homenagem ao poeta madeirense José António Gonçalves. Com apresentação de Natacha Gonçalves, filha do… (ler mais)

Palimpsesto

Pensamento literário de Dezembro por Paulo César Moura: Me dá vontade de dizer: aqui, do lado de cá, na terra dos barrocos e da antropofagia, sentimentos de orfandade e exílio são comuns em nossas vidas. Esses nossos sentimentos – todos de cunho trágico e mágico – são acariciados… (ler mais)

A.Poética # 9

Bem-vindos ao A.Poética # 9

Este é um novo ciclo para o projecto que pretende, com epicentro na Ilha da Madeira, unir a Língua Portuguesa no âmbito da linguagem poética, desta feita aliando a fotografia – uma outra linguagem poética. Além disso, passamos a incluir uma secção de notícias relacionadas com o mundo  da poesia e da imagem.

Neste número damos a conhecer as impressionantes fotos de Miguel Jardim e destacamos a beleza da poética do brasileiro Luiz D Salles e o poema de Paulo César Moura em homenagem às vítima dos atentados de Paris no passado dia 14 de Novembro. Nas notícias, apresentamos “Silêncios”, o novo livro de Zelmira Ayres D’Abreu e lembramos um grande poeta e dinamizador cultural: A. J. Vieira de Freitas.

Saudações poéticas,

MF

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AS ESCOLHAS DO MÊS:

Há dias foi lua cheia

Sou um espelho da ideia da lua cheia.
Sou a noite escondida e sou a verdade química marcada no centro dos bichos.
Sou o chamamento e a intenção da lua. Um rumor intenso das mãos em chamas procurando o suor fervilhante, encontrando a carne pulsante.
Eu sou o nojo da razão no homem. E sou a procura da paz nessa luta entre instinto e educação católica.
Eu sou uma turbina eólica, gritando ao universo a vontade primitiva sem flores.
Sou o chicote e o nenúfar. O enxofre e o néctar. E a divina humanidade.
Sou o pulso egóico na reza a Deus e a máxima contradição incutida na semente até ser árvore. Ela existe. Porque sou e resisto. O conceito estilhaçado do respeito comendo sexo com ginástica lunar.
Pois sou todo o carinho no homem e toda a sua fúria, em medidas parentes mas diferentes, desmedindo-se pelos dias.
Sou a procura bussolada pelo norte inteiro. Sou a busca distraída mas intensa do que sou, lá mais à frente.
Sou todos os recomeços que escolhi para mim e serei alguns desses fins.
Eu sou o calo da minha severa vontade. Das experiências da minha vontade, tomada com jovial insensatez, com justificações assumidas como liberdade.
Eu sou a prova de um caminho porque eu sou o caminho. Sou a liberdade na queda e na ascensão. E sou a marca da redenção na ferida tratada com a saliva maternal.
Sou o paradoxo da incisão da liberdade. Um pináculo de onde podes sempre escolher precipitar-te.
Sou a mão ágil que esconde os sinais de Deus. E sou os olhos que escolhem encontrar esses sinais.
De regresso a casa sou de novo o espelho da lua cheia. Sou aquele estrabismo cansado pela serpente flamejante, que exercita um elogio breve aos instintos lunares.

***

Martelo. Mel

Esta é a minha honestidade
O martelo e o mel.
O martelo enviesado lançado pelo que se é nesse dia.
E o mel ainda pingando da língua
porque é de mel esse dia.
Respiras e ages a prumo certo
na verticalidade do que acreditas e sentes nesse instante,
de um qualquer dia.
A verdade acerta-se com a voz.
O respeito só se contenta com o total leito-caminho.
– Porque desta honestidade fonte-de-fuga entendes?
Algo estremece sem brilho
quando um ponto da fala sugere a ligação íntima
com o coração,
com o tecto do pensamento,
nesse dia.
Espera, espera.
Assusta-te depois.
Quando souberes a parcela essencial
da conversa louca deste dia.
A loucura acordou o vento, partiu as janelas por dentro
e a casa toda saiu à rua.
Espera,
porque a casa pode encontrar-te assim que deixares
Espera,
porque a voz é livre
e hoje há vento e há mel e há martelos
para me conheceres.
(esta é a minha honestidade:
cordão visceral ao nervo óptico,
olhar transparente do que sou)

***

Equinus

Trago um movimento oculto para o dia de hoje
Insano, bate como uma bigorna em espelhos de gelo
Como um ramo seco no fogo extinto
A boca aberta na fonte seca
Como uma criança com fome
Trago este movimento ao dia de hoje
Revira e revolve ideias em fast foward.
Revira os olhos de mulheres com sorrisos de Mona Lisa
Internos
Penso em oferecer-lhes amor de plástico e silicone
Erguer uma fogueira imensa em seu nome
Soltar a fúria da carne.
Na solidão e no silêncio esta força quina na moleirinha
Julgo ser uma força apenas masculina
As hormonas apenas fazem o seu papel natural
Aliadas ao crescente ferem quimicamente a aceitação do instinto
Correr até morrer com a nobreza de um cavalo.

***

Ostras. Mãos

No desígnio secreto dos dias
de cada dia
acontecem facas de veludo entre fadas de sálvia.
Acontece trintaporumalinha.
No forro de líquenes das tuas mãos
as luas do mês são oferecidas
as marés são descobertas
os peixes cantam
e as mães sossegam com a memória dos filhos
quando aceitam que eles já não lhes pertencem.
Naquela bula escondida entre os três tempos
eterna, onde tudo está marcado
acontece o mais belo incêndio
Acontece e desacontece
toda a vida e o seu espelho.
(E em Xabregas
também o Tejo sabe o seu caminho
Apenas eu o questiono.
Acontece em Xabregas
um suspiro solar. Vento quente
e acontece-me debaixo da pele.
O rio aqui tão perto. Tanta sede.)
As tuas mãos
duas ostras blindadas
onde o destino fermenta bênçãos e maldições
e imperceptíveis razões de existência.

 

Filipe Camacho nasceu a 1 de Setembro de 1977 e é natural de S. Pedro, Funchal. Frequentou a Escola Secundaria Francisco Franco e não tem formação académica. A paixão pela poesia acontece ainda na adolescência e mantém-se ate hoje embora com produção intermitente e sem nenhuma publicação significativa. Actualmente reside em Lisboa.

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I

© Miguel Jardim

© Miguel Jardim

O silêncio
Tece o fio das horas
Prepara o caminho
Rupturas no tempo
Deslacra a estrutura
Pelo corte da navalha

II
O silêncio a passos curtos
Desce a ladeira engatinhando
Crianças
Brincam
O olho brilha
Um caracol verde
Rodas de cantigas
Antigas melodias
O som canta encanta
Muda o curso
Da memória

III
A noite grita
Ecos
Vultos
Baila os vaga-lumes
Uma coruja pia
Faminta
A cria grita
Ávida esperança
O rio adormece nos barrancos
Profundamente
As pedras acolhem
Murmúrios Quedas águas
O vento sopra as raízes
A noite sonâmbula canta
Caminha no vale de cristal
Desperta florestas   As cores da manhã
Raios na face da noite
Tece um universo de sons

***

Um varal de galinhas
Nuas e magrelas
No agreste pernambucano
[Para seu Antônio Freire]

***

© Miguel Jardim

© Miguel Jardim

Epitáfio

Quero na minha lápide
Nada mais que um beijo
Quente e úmido
Da paixão
Que guardarei para sempre

***

“Jangada de Pedra”   © Miguel Jardim

Eternos abismos
Nas rugas das pedras
esconde-se o infinito.

***

“Tela #6”   © Miguel Jardim

Do lixo
Colheu restos
Entre gestos
Mastigava
O luxo
O mau cheiro
Não impediu
O gosto bom

Série de Poemas “Abraços” Publicados na revista Antenas &Raízes Nº09

Luiz D Salles (04/02/1956, Aparecida SP. Poeta, Compositor. Produtor Editor da revista Revista Antenas & Raízes. Produção de vídeos poemas 2013) Ponto de Cultura Mídias Literárias. Livro Premiado Alguns Poemas  Coletivo Dulcineia Catadora 2013. Subúrbios da Caneta. Dobra Editorial varias antologias e prêmios. 2014 Participa do Coletivo Tantas letras. Livro Os Sorrisos das Amoras 2014 Giostri Editora. Blog:  folhasderascunhos.wordpress.com

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1_abandono

© Miguel Jardim

Abandono

Desprovida de pensamento,
vazia de ideias,
compenso o mundo pelas palavras entorpecidas…

concentro-me no cansaço,
inconclusiva anestesia da alma,
caracol de tempo entontecido,
e faço deslizar as minhas hostes pelo nada…

cadências desperdiçadas nas profundezas do abandono…

Goreti Dias nasceu em Santo Tirso licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Na Universidade Portucalense fez a sua pós graduação em deficiência mental/motora. Participou, entre outras coletâneas, em A Arte pela Escrita( EscritArtes.com em parceria com a Editora  Mosaico de Palavras, 7 edições), Nas águas do verso (Lusopoemas), Entre o sono e o sonho, 4 edições (Chiado Editora), Contos cardeais ( Editora Mosaico de Palavras), Imagens da nossa memória ( EscritArtes.com em parceria com a Editora  Mosaico de Palavras), Som de Poetas (Papel de Arroz), Lugares de Palavras de Natal (Editora Lugar da Palavra), Lugares e palavras à moda do Porto (Editora Lugar da Palavra) Autora de “Diários, escritas quase inverosímeis” ( Editora Mosaico de Palavras), “Animais nada animais” ( Editora Mosaico de Palavras), “Animais ainda mais iguais” ( Editora Mosaico de Palavras), “Livro da Distância” (Linkprint)e “dos prazeres e seus contrários” ( Editora Mosaico de Palavras). Brevemente, ” Nuances de vermelho em carne ao rubro (Editora Mosaico de Palavras, setembro 2015).

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© Miguel Jardim

© Miguel Jardim

O sol da manhã Lurdes
É apenas um feixe de raios no esquecimento de nós
São lassos os elos que tenuemente urdimos
São crassos os erros que vorazmente maquinámos
É todo o parco sonho a esmaecer
O sol faz coro na tristeza que criámos

Nem dor nem lágrimas Lurdes
Nem tampouco qualquer cruel remoque
Nem o desgosto de não saber de novo o nosso gosto
Nem a perdição de nunca sabermos mais de nós
Nem o sol a saber nascer sem saber de duas bocas unidas
Por saber unidos os eleitos lábios

Os dias turbulentos Lurdes
São dias iguais a dias planos
Se caminhas por áleas de madressilvas
Recorda que no deserto dão-nos os cactos o aconchego
Não julgues perdido o momento sublime
No destino encontraremos a imagem sonhada

Vão díspares nossos olhares Lurdes
Vai certo o dia a nascer no horizonte
E ao meio-dia fechamos os olhos no solarengo esplendor
Ao meio-dia partimos ou ficamos tolhidos pela luz
No fim da jornada a cada um o seu porvir
Porque somos de sóis diversos

Nunca se faz tarde o desencontro Lurdes
Do outro lado do espelho fica o mar
Do outro lado de nós resta apenas um eco
Do lado justo das coisas vividas
Do lado que é só lembrança
Nunca o desnudes de todo Lurdes

Recorda sem amargura Lurdes
Que o mistério de não haver mistério algum
É deixar que a vida siga sem suposições tolas

Dionísio Dinis, pseudónimo literário de Manuel Joaquim Antunes Cardoso, é essencialmente um navegante das redes literárias virtuais e declamador ocasional. Mantém-se fiel ao espaço literário EscritArtes.com, lugar onde é Moderador Global. Nado e criado em Alhandra, concelho de Vila Franca de Xira, reside actualmente no concelho de Valongo. Participou em inúmeras colectâneas:  A Arte pela Escrita um, dois, três, quatro , cinco, seis e sete(Mosaico de Palavras Editora), Entre o sono e o sonho 3, 4, 5 e 6,(Chiado Editora) Imagens da nossa memória(Mosaico de Palavras Editora), Cartas ao desbarato(Mosaico de Palavras Editora, Contos de Natal (Lugar da Palavra), Poetas da Nossa Terra (Lua de Marfim)…

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© Miguel Jardim

© Miguel Jardim

No limbo da noite

No limbo da noite
caem as águas deste rio
um dia saído do nada
foi solidão
o vento será lembrança da lua
de ventre inchado
que roça este presente incerto
Quantas vezes repetirei
estes gestos maquinais
até que a espera termine
e lance as sementes da bonança

Rogério Saviniano Telo Licenciado em Inglês/Francês pela UMa, fez parte dos seus estudos na universidade de Gotemburgo. Desde muito cedo dedica-se à poesia pois esta é o elixir da existência.

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FOTOGRAFIA:

Toda a fotografia e a nova imagem do projecto é da autoria de Miguel Jardim, fotógrafo convidado para integrar o # 9 do A.Poética:

Miguel Jardim nasceu no Funchal em 1968. Dedicou-se brevemente à fotografia analógica, tendo começado a fotografar em digital em 2009. Já expôs individual e colectivamente no Funchal e em Viseu, contando ainda com algumas selecções e destaques no programa Casa das Artes da RTP Madeira e também no jornal digital P3, entre outros, fruto da sua presença na rede social Instagram. Publica regularmente nesta rede e, em especial, no seu blog A Gaivota Existencialista (agaivotaexistencialista.blogspot.com) e na sua página “Miguel Jardim” no facebook. A sua fotografia reflecte o gosto pela fotografia de rua, urbana e rural e pelo surrealismo na imagem.

© Miguel Jardim

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OS NOSSOS POETAS CONVIDADOS:

tempo polido

    Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
            Uma pedra de nascença, entranha a alma.
João Cabral de Melo Neto

pelas calçadas do funchal
(em pedra e arte calcetadas)
passaram meus ancestrais
pés descalços / solas gastas
corpos descuidados
a polir o (seu) tempo
sem atinar com ele
na paisagem entranhados

solas novas na pedra gasta
em cuidados, agora percorro eu
as marcas esquecidas, indícios
da pedra primeira
da pedra pedra
fundadora

Dalila Teles Veras, inédito

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Crónica 27

homens milenares – pesados de tempo como um rastilho
reduzidos à complexidade de um livro branco – simplificados até às sobras irredutíveis da impaciência terrena – tentando a dádiva paciente de divindades finitas – cercados por palavras inúteis – que nada fazem às couraças – aos istmos – às penínsulas e aos estreitos – palavras e sucessores das palavras que se desviam das quebradas – dos leitos das ribeiras – que não descoroam a montanha – que não fazem a montanha parir – nem murganhos de cabeças enfezadas
homens sempre catedrais em potência – em direcção a qualquer lado onde não faça sol ou temporal – catedrais de palha – com contrafortes de canavieira – espaços de fronteiras móveis – e passos de fronteiras imperiais – todos se demoram em todos lugares – não há memória de nenhum dos lugares
reduzidos restos de meia arroba de gente – com celeiros cheios de lastro inventariado e livre de imposto – nas mercearias recusam sempre o sal – homens de salinas em ruínas – nada põem sobre a mesa – nada têm ao lume – se tivessem queimaria – colheres e facas que enferrujam sem emprego – sem saliva – mãos em desuso de orgulho – não se colhe – não se levanta – não se corta ou apara – braços arrepanhados em frente do peito – braços em caixas estanques e higienizadas – sopram a poalha das coisas – das provisões acondicionadas ao fundo – tudo fica armazenado – perecível mas armazenado – apodrecem essas coisas com prazo afilado – restos de gente para quem não há sonhos de escassez – só pesadelos de abundância
é esta a terra – o maná – dá o leite e depois enquista-se a mama para dentro – fica o leite enegrecido em coágulo
gente que não suporta o olhar dos gatos – das crianças – de cães abandonados – apesar de perscrutarem como um cão abandonado – que vai de dócil a hostil como uma lâmpada queima – convalescentes em camas em migalhas – acamados em lascas – deitados sobre um espelho partido – espécie conservada com decalque e papel químico – com vestígios em negativo feitos em máquinas quase sem tinta – espécie proto-divina – proto-subliminar – proto – com progénie e descendência implícitas
homens que recusam uma segunda vinda – que recusam a vinda de profetas – a segunda vinda do profeta daniel – porque são afinal leões – esfomeados – apesar de tudo esfomeados – homens que são como metalurgias acabadas – em vez de casebres em construção – feitos de lâminas a deflagrar faíscas na pele de diamante – ao invés de braços como facas obtusas afiadas na pele de linho – que ateiam o fogo nas aras com fôlego distraído e lenha seca – em vez de fazerem tributo de sangue às chamas
homens como pensam que são a predilecta criação de deus na terra – e adormecem – e acordam – com a imortalidade do tempo perdido – descontado como contabilidade competente – nas mãos – homens que não entram de manso na cidade dos mortos – que não sabem que muitos jazigos parecem berços – que do berço à lápide não há caminhos paralelos ou estações evitáveis – pensam que são as únicas e intermináveis cogitações de um deus servil – e esquecem-se que numa cruz – num cemitério – tudo é circular e não há pontos de fuga.

Dinarte Vasconcelos, http://www.cronicasparadiaseguinte.blogspot.pt

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14/11

Em Paris, tinha um rapaz feliz que eu queria ser.
Não é porque diziam que gostava de ler e namorar,
passear e escrever poemas na beira do Sena.
Diziam que esse rapaz feliz de Paris
vivia à frente da nossa idade –
a favor da liberdade da arte e das diferenças culturais.
Tão só na sombra de mim mesmo em minha América mal amada,
caminho triste e a esmo, sem meu Rio Doce, tão lindo,
e, como se fosse domingo, vejo minha escola fechada.
O rapaz feliz de Paris que eu queria ser,
diziam, não suportava injustiça.
Não era como Macunaíma, não tinha preguiça,
fizera a Cidade Luz à custa da razão,
afastando de si a cruz e a superstição.
Contudo, o rapaz feliz de Paris está sem nada:
acordou com a asa ensanguentada
e seus olhos utópicos vazados.
Um grito da Terra Fraterna se ouviu daqui.
O que dizer ao filho? Por que essa guerra?
Como vamos prosseguir?
Atônito sábado desproposital mundo:
o fundo de deus é um saco sujo.
O rapaz feliz de Paris, que tristeza!, está morto
e eu sou a sombra dos esquecidos do qual sempre fujo.

Paulo César Moura, poema inédito

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A Luz Saindo por si Própria das Trevas

Procuro desenhar sulcos inteiros na pedra.
Em vão
Busco o peso sem cor
Na superfície das ondas…

E nada à minha espera
Para além do tempo branco.

Cansaço.

A solidão é o destino do teu olhar,
Eu sei.
E eu tenho que voltar a perder-me
No silêncio de fogo do meu caminho nocturno.
Mais uma vez.

A terra já não é a alquimia
Entre o ar e o oceano.
Há um gesto lento
Que me perfura as noites,
E já não consigo estar aqui.

Agora é só tempo
De esculpir a gema verde,
Alimentar os espectros,
Fazer da fala e do corpo
Um mesmo símbolo encoberto,
E partir sob as ondas,
Com o tempo a gritar
Baixinho
No espaço deixado vazio.

Miguel Santos, 2015

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NOTÍCIAS:

Três “universos” inspiradores” nos Silêncios de Zelmira Ayres D’Abreu

Zelmira Ayres D’Abreu, autora madeirense residente em Lisboa, esteve na Madeira no passado dia 19 de Outubro para a apresentação de “Silêncios”, o seu mais recente livro de poesia.
O evento decorreu no Salão Nobre da Câmara Municipal da…  (ler mais)

Vieira de Freitas nos 500 Anos de Santa Cruz

Inserido no Congresso Santa Cruz 500 Anos e nas comemorações do quinto centenário do concelho, realizou-se uma palestra acerca do poeta santacruzense António José Vieira de Freitas a cargo da docente da Universi… (ler mais)

Alpharrabio teve Dia D – Dia Drummond

No passado dia 31 de Outubro,  a Editora Livraria Alpharrabio (Santo André, SP), da nossa poeta convidada Dalila Teles Veras, juntou-se às comemorações do aniversário do nascimento do poeta brasileiro Carlos Drummond(ler mais)

Palimpsesto

Pensamento literário do mês, por Paulo César  Moura: Em termos comparativos, quero destacar um encontro fantástico de nossa literatura com a literatura portuguesa. Trata-se de um encontro entre duas épocas distintas; a saber: o século XVI e o século XX. No primeiro, … (ler mais)